O que mais dói é não ter mais colo de mãe para onde correr.
Durante toda a minha vida tive o trauma de ser abandonada, de não ser boa o suficiente para ninguém, talvez por causa do meu pai, quem eu achava que não gostava de mim e por isso desapareceu.
Mas a minha mãe.. foi a pessoa a quem eu agarrei a mão noites a fio com medo de ficar sozinha, foi quem me deu um beijo antes de dormir porque eu tinha medo do escuro, foi a que não me obrigava a comer peixe porque eu não gostava, a que me ouvia e entendia, a que esconderia um corpo se eu matasse alguém, a minha mãe era a mulher da minha vida, a única pessoa que eu sabia estar ali desde sempre e para sempre achava eu.

Infelizmente enganei-me, algures no meio da história ela decidiu que deveria ser apenas ela.
Decidiu que queria fazer de mim uma boneca que lhe satisfizesse os desejos, mais um peão em todos os filmes que faz, e durante tantos anos eu calei, alinhei, perdoei vezes sem conta.
Inventei desculpas que justificassem os meios. Fiz tudo, tudo que podia para continuar a ter uma mãe.
Mas a verdade é que não tenho.
E isto, é a coisa mais difícil que já alguma vez escrevi, como se o meu peito fosse um buraco negro.
Eu não tenho colo de mãe para onde correr.
E apesar de doer, apesar de estar tão insegura, eu orgulho-me, só de mim, porque não precisei da educação de ninguém para ser a mulher que hoje sou e por muito que continue a doer.. só posso continuar a viver.
É isso que faço, todos os dias.
Apenas continuo.