fica bem mãe.

Mãe.
Durante muitos anos pensei compreender o significado desta palavra.
Pensei ter realmente alguém do meu lado contra tudo e todos bem longe dos julgamentos do mundo.
Pensei que seria um porto de abrigo. O meu colo para chorar ou sorrir.
E mesmo quando tudo mudou, quando ela teve cancro a primeira vez ou a segunda, quando começou a ser egoísta e a tornar-se uma outra mulher.. Eu fiquei.
À minha maneira. Mas fiquei.
Lutei por ela. Dei o meu melhor, por ela. Mesmo que tudo seja pouco aos seus olhos.
Eu era e sou apenas uma miúda que do nada se viu sem mãe, apenas com uma mulher a seu lado que o dizia ser.
Não a julgo.
Não foi fácil para ninguém, muito menos para ela. Daí eu deixado muito de mim de lado, e fazer os possíveis para lhe continuar a dar pouco, mas o melhor.
Eu não sou perfeita. Nunca irei ser.
Criei traumas, medos, escondi-me de tudo e todos, criei uma personalidade má, fria, sem sentimentos, para que fosse impossível cair no chão. Afinal tinha que a segurar. Com todas as minhas forças.
Não sei onde fiquei no meio disto, sei apenas que os anos passaram e eu não me lembro de metade e confesso que a culpo porque apesar de ela não ter desejado a doença ou o sofrimento que se seguiu, ela não tinha o direito de simplesmente deixar de ser pessoa e colocar toda a sua vida em cima da minha e esperar que eu ficasse de pé, como se nada fosse.
Esperar que isso não me trouxesse consequências em quem eu me estava a tornar.
Porque teve.
E mesmo com a consciência disso, eu continuei a dar-lhe o meu melhor, a querer acreditar que apesar de ela ter mudado tanto continuaria a ser minha mãe.
Mas dia após dia, só me desiludi. Sempre que precisei, não a tive.
E assim, fui caindo, sozinha. E aprendendo a levantar, igualmente sozinha.
Tornando-me na mulher que sou hoje, por mim.
Tenho muito orgulho, em tudo o que consegui.
No entanto continuo a precisar da minha mãe mesmo que isto me custe tanto a admitir, ás vezes volto a ser a menina que esperava pela mãe todas as noites para lhe dar um suave beijo de boa noite.
Só que agora, por mais que a chame, ela não ouve, não vem.
E se vier, é por ela, pelos interesses dela.
Isso.. isso não é ser mãe.
Não para mim, não na minha definição.
E por mais que a tente perdoar, sinto que não sou capaz, não para já. Estou triste, desiludida.
Porque a pessoa que foi um dia a minha melhor amiga, o melhor de mim.. Já não existe.
Hoje apenas me quer manipular a fazer algo que lhe dê jeito a ela, e pois bem, posso admitir isto de muita gente no mundo e ignorar, mas não da minha própria mãe!
Ela deveria ser a única pessoa no meio de 7 mil bilhões delas que me devia proteger!
Começo a desistir de a fazer ver isto, a desistir de ser a menina dela, de tentar que ela volte.
E começo a insistir em mim.
Na minha vida. Começo a aprender a viver comigo, sem esperar mais por ela.
Quem sabe um dia eu a perdoe.
Mas neste momento só quero o melhor para mim.
Preciso de abrandar, parar, relaxar, ser apenas eu.
Para poder dar a melhor definição de mãe, um dia, aos meus filhos.