Onde andas Manuel?
Não te vejo há 40 anos mas ainda sei de cor o azul dourado dos teus olhos que me olhavam por horas a fio no jardim lá da terra.
Como me podia esquecer não é?
As tuas mãos de seu tamanho enorme que agarravam meu corpo como se fosse uma fina planta.
O timbre da tua gargalhada, oh, como a ouço a ecoar na minha cabeça.
A tua postura de homem, que teimava em ser rezingão quando não passavas de um coração mole, doce, ai meu Manuel, tão doce que ainda hoje te saboreio.
Prometes-te deixar-me saborear-te uma vida inteira.
Escreves-te a promessa no banco do jardim que viu o nosso envergonhado primeiro beijo e inesperado último.
Faz hoje 40 anos, que aqui estou, somente com uma mala de mão e um coração imenso em amor por ti, à tua espera.
Do meu Manuel de olhar dourado que hoje é e será de uma outra mulher que não o ama como eu. Outra mulher que não guarda cada centímetro dele em si.
Apenas outra que nem sabe da existência do nosso jardim.
Porquê que me deixas-te à espera Manuel? Porquê que nunca chegas-te?
Onde foste?
Onde andas Manuel?