Mãe.
A palavra mais importante da minha vida durante tantos anos.
A única, aliás.
Dormi anos agarrada à mãe dela com medo que ela se fosse embora e ironicamente acabou por ir.
A minha mãe morreu, não fisicamente, o coração continua a bater, mas a mulher que me criou, a mulher a quem confiei uma vida, morreu com o cancro.
Não me pude despedir. Não pude chorar.
Não pude falar da minha dor porque ela continua viva aos olhos de toda a gente.
Perdi a minha mãe e fui obrigada agir como se nada fosse.
Lutei com tudo o que tinha para a ressuscitar.
Mas ela levou-me deliberadamente para o seu abismo. E eu fiquei.
Afinal dava a minha vida pela dela se pudesse.
Um dia abri os olhos e senti-me também a morrer.
Já não sorria, já não vivia, estava apenas a lutar por uma causa perdida, a ser gozada, usada.
E desisti.
Nesse dia fui posta fora de casa.
A minha casa, aquela que esperava voltar para sempre. A que me viu crescer.
Esvaziei o meu quarto, pisei o chão onde tanto escrevi pela última vez.
Chorei, chorei tanto. Como se deixasse parte de mim ali, naquele sitio vazio.
E deixei.
Deixei a menina que amava a mãe mais que tudo nesta vida.
Tranquei a porta e saí.
Olhei uma última vez para aquele edifício, tinha uma vida inteira ali. Tantas, tantas memórias.
Sorri e agradeci, por todos os anos que ali vivi.
Quando me vim embora senti-me leve, mesmo tendo o coração tão apertado.
Sabia que talvez ser posta fora de casa fosse a melhor coisa que me acontecera.
Recomeçar.
Conhecer-me.
Voltar aos sorrisos, à positividade.
Voltar a mim.
A ela, desejo-lhe tudo de bom e do melhor, agradeço do fundo do coração pelos anos que me criou, mas eu não sou chão para ser pisada nem luz para ser trocada. Tudo o que fez de mau, tornou-me em uma mulher que me orgulho tanto.
Vou sempre amá-la. Muito. Mesmo que ela não o mereça.
Mãe.
Uma palavra que significou tanto e agora não significa nada.
