#quintadoscontos

Hoje lembrei-me de ti.
De como eras a única pessoa a quem ligava sem hesitar em qualquer momento do meu dia.
Estivesse a rir às gargalhadas ou a soluçar de choro.
Ligava sem vergonha, sem timidez.
Hoje em dia não o consigo fazer.
Não por nem sequer ter o teu número.
Mas sim porque me fechei num cofre de sete chaves e mandei-as fora.
Tornei-me numa mulher tão forte que toda a gente pensa que não desaba, não chora, não precisa de ombro. Culpa minha, em parte, por nunca dar a parte fraca, o meu olhar triste é difícil de descodificar.
Também divido melhor as dores, sei o que precisa doer ou o que afinal não dói assim tanto e sigo sempre em frente.
Quando me conheceste não era metade da mulher que sou hoje.
Nem tu, acredito.
A minha vida ainda não tinha dado as milhares de voltas que já deu.
A tua não sei.
Quando me conheceste acreditava que o meu futuro era imenso em sonhos realizados. 
Não tinha chorado metade do que já chorei.
Não me tinha destruído. Desistido. Desabado.
Quando me conheceste era tudo tão diferente.
Hoje os meus pais estão separados. Não vivo mais onde passámos horas a conversar. Chamo casa a um sítio onde ninguém do meu sangue vive. A minha mãe não é mais a minha melhor amiga, não é nada, aliás. Sei agora que existem almas gémeas. Hoje continuo a acreditar no amor, mas apenas no verdadeiro, continuo a escrever aqui e no fim dos cadernos, continuo a sorrir de orelha a orelha por ser noite de lua cheia ou por um tapete verde lima, continuo a ser eu.
Mas tu já não me conheces.
Nem eu a ti.
Quem sabe, ainda bem.
Hoje lembrei-me de ti.
Queria pegar no telemóvel e ter uma boa conversa, falar de coisas boas, às vezes sinto que apenas sabem falar comigo de coisas más, coisas que doem, e cansada disso, estou eu.
Éramos uma coisa boa.
Tu e eu.
Lembrei-me de ti.
Lembrei-me de mim também.
Percebi que apesar de o meu chão ter desaparecido durante estes anos que passaram, eu construí um novo, um que nunca irá desabar mesmo que a terra se mova.
Percebi que sou tão, mas tão melhor do que era.
Volto a lembrar-me de ti.
Não tenho saudades tuas. É impossível senti-las por alguém que não se conhece.
Tenho saudades da amizade.
Ou talvez tenha apenas saudades de conseguir conversar com alguém, de todas as dores que me assombram.
Lembrei-me de ti.
De como falávamos com o olhar.
Lembrei-me de ti.
Porque saberias o que me dizer.
Assim que me olhasses nos olhos sentirias tudo aquilo que sinto.
Lembrei-me de ti.
Hoje.