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Nunca na minha vida havia sentido tamanha dor.
Como que se me tivessem arrancado o coração.
Aquele carro, a nossa 320 levava algumas das coisas que mais amo nesta vida.
E eu só pude ficar a observar enquanto se iam embora.
A menina dentro de mim gritava alto para eu fazer alguma coisa, que a vida não pode ser assim tão injusta, eu abracei-a, porque é, infelizmente é. Disse-lhe que guardasse todas as boas memórias no coração e que aquele paidrasto nunca, mas nunca a iria abandonar. Ela chorou, chorou comigo, que mesmo sendo adulta não fui capaz de esconder os soluços, não fui capaz de continuar com a máscara de que está tudo bem quando não está.
Estou destroçada.
Apenas, gosto muito dele e devo-lhe muito.
A ela, a suposta mãe, nome que já não lhe chamo, devo só e apenas respeito, coisa que ela não tem por mim.
No meio de uma história tão dolorosa, complicada, deixou-me sozinha por outro alguém e depois de tudo o que já perdoei, cansei-me e desisti.
Dela e de todo o drama que faz. Do pouco amor que deu.
Desisti da minha própria mãe, a quem sempre chamei mulher da minha vida.
Pois bem, agora sou eu,
eu sou a mulher da minha vida.
E eu nunca desistirei de mim. Ou de qualquer filho que venha a ter.
Existem momentos que nos mudam, e o segundo que eu vi aquele carro a sair daqui para sempre foi um deles.
Não pensei ser capaz de suportar tal dor, mas fui. E o dia continuou.
O mesmo sol voltou a nascer. O tempo não parou.
Eu fui capaz. Venha o que vier, agora sei que tudo é possível.